Encarceramento × homicídio · 27 UFs · 2016–2022

Prender mais faz o homicídio cair?

Entre 2016 e 2022 o Brasil aumentou a população prisional em 18% e viu o homicídio cair 26%. É tentador ler as duas curvas como causa e efeito. Mas quando se olha estado por estado — onde as políticas de fato variam — a relação praticamente desaparece.

Cada ponto abaixo é uma unidade da federação. O eixo horizontal mede quanto o estado passou a encarcerar; o vertical, o que aconteceu com sua taxa de homicídio no mesmo período. Se prender mais derrubasse o homicídio, os pontos desceriam da esquerda para a direita. Eles não descem.

Correlação (bruta)

−0,18

Pearson entre variação do encarceramento e do homicídio, 27 UFs.

Ponderada por população

−0,01

Dando a cada estado o peso dos seus habitantes, a relação some.

Variância explicada

3,4%

R². Os outros 96,6% do que aconteceu com o homicídio estão fora deste gráfico.

O teste

Quem mais encarcerou não foi quem mais reduziu mortes

A nuvem é larga e a linha de tendência, quase plana. Os casos extremos contam a história melhor que a média: SP foi o único estado a reduzir a taxa de encarceramento e ainda assim derrubou o homicídio em 34%; PR mais que dobrou a sua e caiu 41% — pouco mais que RJ, que quase não mexeu no encarceramento e caiu 65%. No outro extremo, AM prendeu 24% mais e viu o homicídio subir.

Variação do encarceramento × variação do homicídio, por UF 2016 → 2022 · área do círculo = população do estado em 2022
+15%0%−15%−30%−45%−60%−75%0%+25%+50%+75%+100%+125%tendência · r = −0,18homicídio subiuhomicídio caiuSPACMGRJAMPIROGODFPRvariação da taxa de encarceramento 2016→2022 →
uma UF · círculo maior = mais habitantes eixo vertical: variação da taxa de homicídio por 100 mil

A mesma coisa, sem a nuvem

Ordene os estados pelo quanto prenderam. O homicídio não segue a ordem.

Em cima, os 27 estados enfileirados do que menos ao que mais aumentou o encarceramento — uma rampa limpa, por construção. Embaixo, o que aconteceu com o homicídio de cada um, na mesma ordem. Se houvesse relação, a fileira de baixo também teria inclinação. Ela é ruído.

Estados ordenados pelo aumento do encarceramento barras cinza = variação do encarceramento (o critério de ordenação) · barras coloridas = variação do homicídio
variação do ENCARCERAMENTO · critério de ordenação →variação do HOMICÍDIO · mesma ordem de estados+140%+70%0%0%−35%−70%SPACPBAPMGPEMSRSRJSCTOESAMBAPAGOPISERORRCEMTMAALDFRNPR
variação do encarceramento homicídio caiu (25 UFs) homicídio subiu (AM, PI)

E o nível, não só a variação

Estados que prendem muito também não são os mais seguros

Talvez o que importe não seja o quanto um estado mudou, mas o quanto ele prende em termos absolutos. Também não: em 2022, a correlação entre taxa de encarceramento e taxa de homicídio é de apenas −0,23. RO e AC estão entre os que mais prendem no país e seguem com homicídio alto; BA prende pouco e também tem homicídio alto; SP prende muito e tem a menor taxa. A dispersão é grande em qualquer faixa.

Taxa de encarceramento × taxa de homicídio, 2022 ambos por 100 mil habitantes · área do círculo = população
0153045100300500700900tendência · r = −0,23SPBADFROAMSEACPRpresos por 100 mil habitantes, 2022 →
eixo vertical: homicídios por 100 mil habitantes em 2022

Ressalvas

O que este gráfico não prova

  • Ausência de correlação não prova ausência de efeito. Prova que, no recorte estado-ano, o volume de encarceramento não organiza o que aconteceu com o homicídio. Um efeito real pode existir e estar encoberto por fatores mais fortes — dinâmica de facções, mutações no policiamento, demografia.
  • A relação fraca é também frágil. Ela cai de −0,18 para −0,01 quando se pondera pela população, e vira +0,01 (troca de sinal) removendo apenas dois pontos de alavancagem, PR e DF. Não é um sinal fraco e estável; é ruído.
  • É uma correlação ecológica. Vale para estados, não para pessoas: nada aqui diz o que acontece com um indivíduo preso ou solto.
  • Os pontos não têm o mesmo peso. A correlação bruta trata Roraima (637 mil habitantes) e São Paulo (44,4 milhões) como uma observação cada — por isso a versão ponderada está reportada ao lado dela, e não no lugar dela.
  • As fontes têm limites conhecidos. O SISDEPEN é autodeclarado pelos próprios estabelecimentos penais. O SIM registra o óbito, não a autoria; a contagem de homicídio usada aqui (CID-10 X85–Y09 mais Y35) inclui mortes por intervenção policial.
  • Os anos não foram escolhidos a dedo. 2016 é o primeiro ciclo do SISDEPEN com população prisional preenchível e 2022 é o último ano fechado do SIM no espelho local — são as pontas disponíveis, não um recorte conveniente.

Dados

Os 27 estados, valores completos

Taxas por 100 mil habitantes. Toda a base está aqui — os gráficos acima não mostram nada que esta tabela não mostre.

Encarceramento e homicídio por UF, 2016 e 2022
UF Presos
2016
Presos
2022
Var. Homic.
2016
Homic.
2022
Var. População
2022
AC747716−4,1%44,423,0−48,2%830.018
AL212385+81,7%54,231,7−41,6%3.127.683
AM256317+23,8%36,339,7+9,3%3.941.613
AP375406+8,1%48,738,2−21,6%733.759
BA89117+31,1%44,638,0−14,6%14.141.626
CE275424+53,8%40,631,0−23,6%8.794.957
DF502968+92,8%25,58,0−68,6%2.817.381
ES499604+21,0%31,925,5−19,9%3.833.712
GO278379+36,2%45,220,9−53,9%7.056.495
MA118186+58,2%34,626,8−22,7%6.776.699
MG311341+9,4%22,09,6−56,3%20.539.989
MS683787+15,2%24,316,9−30,7%2.757.013
MT352542+53,9%35,726,4−26,0%3.658.649
PA180243+34,9%51,034,0−33,4%8.120.131
PB306322+5,2%33,926,6−21,5%3.974.687
PE488552+13,3%47,236,0−23,7%9.058.931
PI132180+36,4%21,822,9+5,1%3.271.199
PR327761+132,6%26,615,8−40,5%11.444.380
RJ307361+17,6%33,211,6−64,9%16.055.174
RN191368+93,0%53,329,0−45,6%3.302.729
RO672938+39,6%39,235,7−8,8%1.581.196
RR487717+47,3%39,528,1−28,8%636.707
RS314369+17,3%28,216,9−40,3%10.882.965
SC297355+19,3%13,97,8−43,9%7.610.361
SE220305+38,7%64,633,2−48,6%2.210.004
SP514440−14,5%10,36,8−33,9%44.411.238
TO225272+20,8%36,929,5−20,1%1.511.460

Fontes · População prisional: SISDEPEN/SENAPPEN, ciclos 1 (2º sem. 2016) e 13 (2º sem. 2022), campo 4.1 “população prisional total”, agregado por UF a partir do censo por estabelecimento.
Homicídios: MS/SVS Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), causa básica CID-10 X85–Y09 e Y35, por UF de residência.
População: IBGE, estimativas por UF.
Apurado em 26/07/2026 sobre o espelho local do projeto rodado (br_mjsp_sisdepen, br_ms_sim, br_ibge_populacao).