Relatório de investigação de dados

Templos Religiosos do Brasil por Vertente

Distribuição por UF, série temporal de fundação, formalização institucional por vertente e dez perguntas em aberto — a partir de 765.591 templos geolocalizados.

Universo 765.591 templos Fonte primária CNEFE + CNPJ (Receita Federal) Metodologia metodologia.md ↗ Dados dados/igrejas_geolocalizadas.parquet

01 Vertente por UF

% Católica e % Evangélica pentecostal por estado (rollup de vertente, as duas maiores categorias), ordenado por total de templos.

Participação de Católica e Pentecostal no total de templos, por UF

Ordenado por total de templos (desc.) · % sobre o total do estado

Fonte: dados/igrejas_geolocalizadas.parquet. Passe o mouse sobre uma barra para o valor exato.

Ver tabela completa (26 UFs)
Vertente por UF
UFTotal% Católica% Pentecostal

Padrão notável: RJ tem a menor % católica do país (4,9%) — bem abaixo até de SP (9,5%). Norte (PA, TO, AC, AP, RR, AM) tem consistentemente a maior % pentecostal (35–42%), enquanto Nordeste tradicional (PB, PI) mantém % católica mais alta (24%+), destoando do resto do país.

Mapa estático de conversão evangélica 2010→2022 por município
Mapa de conversão evangélica 2010→2022 já existente no projeto (../mapa_conversao_evangelica_2010_2022.png) — a hipótese óbvia é que o Norte, sendo fronteira de povoamento mais recente, teve penetração pentecostal mais forte que o Nordeste católico tradicional, mas isso não foi testado formalmente aqui.

02 Série temporal de fundação (via CNPJ)

CNEFE não tem data de fundação do templo. A única fonte de data é data_inicio_atividade do CNPJ (Receita Federal) — proxy limitado ao subconjunto formalizado (154.792 templos, 20,2% do total). Registros ativos de CNAE 9491-0/00 por ano de abertura, agregados por década.

Novos registros de CNPJ religioso (CNAE 9491-0/00), por década

Contagem absoluta · último período parcial (marcado *)

* 2020–2025 é parcial — só até a safra mais recente disponível (2025-09), não é uma década completa.

Ver tabela
Série temporal de fundação
DécadaNovos registros% do total formalizado

Leitura: crescimento nítido e acelerado a partir dos anos 2000, com a década 2010–2019 sozinha respondendo por mais de um terço de todos os registros formais já feitos. Consistente com o boom evangélico bem documentado no Brasil nesse período — mas atenção: isto mede taxa de formalização/abertura de CNPJ, não taxa de fundação de igrejas. Uma igreja fundada em 1985 mas formalizada só em 2015 aparece como "2015" aqui.

03 % com CNPJ vs. sem, por vertente

Proporção de templos com CNPJ associado, por vertente (ordenado desc.). Católica em destaque — ver achado abaixo.

Taxa de formalização (CNPJ) por vertente

% de templos com CNPJ · Católica destacada em azul, demais em cinza de contexto

Fonte: dados/igrejas_geolocalizadas.parquet.

Ver tabela
% com CNPJ por vertente
VertenteTotalCom CNPJ%

Achado contraintuitivo: Católica tem a menor taxa de formalização de todas, quase metade da média geral. Hipótese mais provável (não confirmada diretamente, mas coerente com a estrutura institucional conhecida da Igreja Católica no Brasil): a Diocese é o CNPJ, não cada capela/paróquia — uma diocese registra um único CNPJ que cobre dezenas de templos físicos, então o cruzamento por CEP (que exige um CNPJ religioso no mesmo CEP do templo) sistematicamente não encontra match para capelas distantes da sede administrativa. O número de 10,7% provavelmente subestima a formalização católica por um artefato metodológico, não reflete informalidade real maior que as outras vertentes.

04 Por que o governo não fecha as "não oficiais"?

Análise, não um achado extraído dos dados — baseada em conhecimento geral sobre o arcabouço legal brasileiro, não verificada linha a linha nesta sessão.

  • Liberdade religiosa é direito constitucional (Art. 5º, VI da Constituição) — o culto e a reunião religiosa em si não dependem de registro em nenhum órgão pra serem legais. CNPJ é necessário só pra atividades acessórias: abrir conta bancária, contratar funcionário formalmente, emitir recibo de doação dedutível, ter imóvel em nome da entidade.
  • Imunidade tributária de "templos de qualquer culto" (Art. 150, VI, "b") é uma garantia constitucional sobre o patrimônio/renda do templo, não algo condicionado a CNPJ — reforça que o Estado trata a existência do templo como presumida, não como algo a ser autorizado.
  • Não há ilícito em reunião religiosa informal — abrir uma "igreja" numa sala alugada não é análogo a abrir um comércio sem alvará; a fiscalização municipal tende a mirar segurança/zoneamento, não a natureza religiosa do uso.
  • Capacidade fiscalizatória é finita e direcionada: Receita Federal e Ministério Público atuam contra organizações religiosas com CNPJ suspeitas de fraude fiscal/lavagem — não contra a informalidade de congregações pequenas, que não geram sonegação relevante.
  • Custo político: o bloco evangélico é grande e politicamente organizado no Brasil; não há incentivo político pra uma cruzada de formalização compulsória de igrejas pequenas.

Isso é raciocínio, não uma citação de lei específica verificada — se for usar isso em algo formal, vale confirmar as referências legais exatas antes de publicar.

05 Dez perguntas em aberto

Coisas que a investigação levantou mas não deu tempo/dado pra responder de início. Oito delas foram respondidas na seção 6 cruzando arquivos que já existiam no projeto.

    06 Perguntas respondidas

    As oito perguntas abaixo (das dez da seção 5) foram respondidas cruzando arquivos que já existiam no projeto — nenhuma delas exigiu nova coleta de dado, só nova consulta. Duas ferramentas novas e reproduzíveis foram escritas para isso: dados/perguntas_abertas.py (responde §6.1–6.5 e §6.7, roda localmente) e dados/consulta_cnpj_vertente_tempo.py (responde §6.6 e §6.8, exige ssh beelink + DuckDB). Duas perguntas (6 e 10) permanecem sem resposta — ver nota ao fim desta seção.

    6.1 Coordenadas duplicadas

    Templos duplicados
    0,7%
    5.253 templos de 765.591 no total
    Pares de coordenada
    2.538
    aparecem mais de uma vez no dataset
    Maior grupo
    9templos
    mesma coordenada, em Goiânia-GO e Portel-PA

    Proporção pequena, não é um problema estrutural. Não investigamos linha a linha se são denominações que trocaram de nome no mesmo endereço ou duplicação genuína do CNEFE, mas a escala (0,7%) não muda nenhuma leitura agregada deste relatório.

    6.2 Correlação templos × fiéis declarados (Censo 2022)

    Corresponde à Fig. 6/Apêndice B do NT20 — mas o NT20 só validou 2010, só evangélica, e só por UF. Aqui: por vertente, por município e por UF, contra o Censo 2022, correlacionando templos/100 mil hab. com % de fiéis declarados.

    Correlação (r) entre templos per capita e % de fiéis declarados

    Coeficiente de Pearson · por município (n=5.569) e por UF (n=26)

    DF sai da base — zero templos no parquet, mesmo gap de fonte do CNEFE já registrado para docs/viz-uf (ver nt20-araujo-analise.md).

    Leitura: a correlação é mais forte agregada por UF do que por município (esperado — ruído de classificação/geocodificação de cada templo individual se cancela na agregação). Evangélica é a vertente com correlação mais forte por UF (0,839), muito próxima do que o NT20 relatou para 2010. Católica tem a correlação mais fraca das quatro (0,411 por UF) — consistente com o achado da seção 3: capela católica raramente tem CNPJ no mesmo CEP, então a contagem de templos por município provavelmente subrepresenta presença católica de forma desigual.

    6.3 Qualidade de coordenada por UF

    Mínimo (RJ)
    98,6%
    nível 1 de geocodificação (GPS real de campo)
    Máximo (SE, PI, TO)
    100,0%
    nível 1 de geocodificação

    RJ e AP são as únicas UFs abaixo de 99%. Não há um padrão evidente de "UF pobre/rural = coordenada pior" — RJ é justamente uma das UFs mais urbanizadas do país e ainda assim tem a pior taxa. A variação entre UFs (98,6%–100%) é pequena demais para distorcer qualquer análise de densidade deste relatório.

    6.4 Sobreposição Umbanda/Candomblé × raça/cor

    Cruzando terreiros/100 mil hab. por município com % preta+parda (Censo 2022), em 1.382 municípios com pelo menos um terreiro contado:

    Correlação (r)0,127
    0 (sem correlação)1 (correlação perfeita)

    Correlação positiva, mas fraca — não confirma a hipótese "terreiro se concentra onde há mais população afrodescendente" com a força que se poderia esperar. Uma leitura possível: a formalização de Umbanda/Candomblé (§3, 21,4% com CNPJ) e a geocodificação por CNEFE têm suas próprias distorções regionais que competem com o sinal demográfico.

    6.5 Nomes fora do dicionário

    282.505 templos (36,9% do total) ficam sem vertente atribuída, com 100.683 descrições únicas entre eles. A distribuição é extremamente concentrada:

    Composição dos templos "não classificados" (282.505)

    Conclusão prática: depois de "IGREJA" isolado, o resto já é cauda longa (nenhum outro nome único passa de 2.305 ocorrências — "SEM NOME"). Não há uma nova leva grande de denominações nomeáveis esperando ser adicionada ao dicionário — o "não classificado" é estruturalmente irredutível na maior parte, não um dicionário incompleto.

    6.6 Padrão etário por vertente

    Corresponde à Fig. 1/2 e Apêndice A do NT20. Reclassificando razao_social do CNPJ (não descricao_estabelecimento do CNEFE), CNAE 9491-0/00 ativos, por década. Cada painel tem escala própria — as vertentes diferem em ordem de grandeza, então uma escala compartilhada esconderia o formato de crescimento das menores.

    Novos CNPJs religiosos por década, por vertente

    Pequenos múltiplos · escala própria em cada painel (contagem absoluta)

    69,0% dos 212.482 CNPJ religiosos ativos bateram no dicionário de vertente sobre razão social.

    Leitura: a expansão evangélica pós-2000 (§2) é quase inteiramente puxada pela própria Evangélica — Católica e Espírita ficam praticamente estáveis em volume absoluto de novos CNPJs desde os anos 1980. O dado mais chamativo é Umbanda e Candomblé: cresce pouco até 2010, mas a década de 2020 (parcial) já supera 2010–2019 inteira em registros novos — sinal de formalização recente acelerada, não necessariamente de mais terreiros abrindo.

    6.7 Templos por habitante

    Corresponde à Fig. 3/4/5 do NT20 (feito só para Pentecostal por UF em 2019; aqui todas as vertentes juntas, por UF e por município, 2022).

    Templos por 100 mil habitantes — extremos

    UF (topo do ranking vs. lanterna) e município (pop. mín. 20 mil)

    Topo do ranking por UF (1ª–11ª posição): AC, RO, PA, AM, AP, ES, RJ, BA, MA, RR, TO.

    Por UF: AC lidera (781,6/100 mil hab.), SP é a lanterna (317,7/100 mil) apesar de ter o maior volume absoluto (124.424 templos, §1) — confirma que o ranking por volume bruto é puramente efeito de tamanho populacional, não densidade religiosa. Por município: topo dominado por Pará/Amazonas (Careiro-AM, Acará-PA); fundo dominado por Santa Catarina/litoral (Balneário Camboriú-SC, Blumenau-SC) — mesmo padrão regional, replicado em escala municipal.

    6.8 Taxa de sobrevivência institucional

    Entre os 84.617 CNPJ religiosos ativos abertos até 2005 (20+ anos atrás), a proporção que continua ativa hoje varia muito por vertente:

    Situação cadastral hoje, CNPJs abertos até 2005

    % do total de cada vertente, por status

    Base: 84.617 CNPJs religiosos ativos há 20+ anos.

    Leitura: Católica tem, de longe, a maior taxa de sobrevivência institucional (quase 79%) — plausível dado que o CNPJ católico costuma ser da Diocese (§3), entidade administrativa estável, não a capela individual. Umbanda e Candomblé tem a menor taxa (20%) por uma margem grande — mas a base é pequena (1.764 registros) e a §3 já mostra que só 21,4% dos terreiros têm CNPJ para começo de conversa, então este número mede rotatividade entre os poucos terreiros já formalizados, não a estabilidade do universo real.

    Perguntas que continuam sem resposta

    Pergunta 6 (por que tipo_especie=6 é mais comum que tipo_especie=8): é uma questão sobre o manual de campo do recenseador do IBGE. Não há como decidir isso cruzando dados que já temos — precisaria da documentação oficial do Censo 2022 ou contato direto com o IBGE.

    Pergunta 10 (por que RJ tem a menor % católica do Brasil): é uma questão causal/histórica (colonização, migração, urbanização). Os dados agregados deste relatório descrevem o padrão mas não têm poder explicativo sobre a causa — precisaria de pesquisa histórica/bibliográfica, não de mais cruzamento de dataset.